O Último Poema


Já chega
Despeço-me aqui
Do tempo gasto com criação
Das intenções de composição
Da meticulosidade desperdiçada nos encaixes
Dos sonhos pintados com palavras
E das fantasias tão cuidadosamente bordadas.
Isso não é vida.
Isso é um mero rabisco, uma fagulha, uma brisa
Uma gota de cor, um simulacro, um arremedo.
A vida verdadeira está lá fora. Esperando.
E há tanto o que ser feito.
E o tempo é tão pouco.
Tão pouco que toda poesia parece até um desperdício.
É chegada a hora de vivê-la. A poesia que tudo é.
De escrever com o "ser"
E de assinar com sorriso ou lágrima
No travesseiro no fim do dia.

[Mas não será o derradeiro verso.
Virão outros.
E nem serão {ou serão} hipócritas, não vividos, feitos de idéia somente, intangíveis.
Mas que nasçam como o dia
Sem esforço
Da transpiração natural do viver
Da condensação inocente do pensar.]

(abril de 2012)