Parestesia


Teus dedos
Carinham
As costas de minha mão
E sobem
Devagar
Pelo meu braço
Indo brincar
Nos pormenores do meu rosto

[E adormeço
Enquanto, delicada
Acaricias meus cabelos
E desperto
Quando a memória da tua mão
Vai repousar em minha nuca]

(setembro de 2012)

O Último Poema


Já chega
Despeço-me aqui
Do tempo gasto com criação
Das intenções de composição
Da meticulosidade desperdiçada nos encaixes
Dos sonhos pintados com palavras
E das fantasias tão cuidadosamente bordadas.
Isso não é vida.
Isso é um mero rabisco, uma fagulha, uma brisa
Uma gota de cor, um simulacro, um arremedo.
A vida verdadeira está lá fora. Esperando.
E há tanto o que ser feito.
E o tempo é tão pouco.
Tão pouco que toda poesia parece até um desperdício.
É chegada a hora de vivê-la. A poesia que tudo é.
De escrever com o "ser"
E de assinar com sorriso ou lágrima
No travesseiro no fim do dia.

[Mas não será o derradeiro verso.
Virão outros.
E nem serão {ou serão} hipócritas, não vividos, feitos de idéia somente, intangíveis.
Mas que nasçam como o dia
Sem esforço
Da transpiração natural do viver
Da condensação inocente do pensar.]

(abril de 2012)

Inversão

Vai
E chora por nós
Que aqui ficamos.

(17 de maio de 2011*)

Recorrência

Acorda o sol e eu me apaixono
[mais uma vez] Pelos mesmos olhos
Esses olhos de manhã
Que me sorriem logo cedo

E não demoro a cair de amores
Novamente
Pela mesma boca
Pelo mesmo beijo

(janeiro de 2012)