Propriedade

A poesia
Não está
Nas coisas.

(junho de 2010)

Soneto de Uma Noite

Na longa noite, vazia e crua
Tropecei, descuidado, em teus enleios
Perdi-me nas sombras dos teus cabelos
Teus cabelos negros como céu sem lua

E o teu desejo veio tocar o meu desejo
Quando nos vimos de sorriso embriagados
E do toque das mãos se fez o ensejo
E nos vestimos de carinho e de pecado

[E ficaram os lençóis e o meu amor bagunçados
Quando ela esvaziou a imensidão do quarto
Deixando um suspiro, um gosto de beijo

Deixando na cama o cheiro doce do corpo
Um arranhão marcado em meu pescoço
E um borrão de batom no meu queixo]

(maio de 2010)

sem título

E existem ainda esses amores
Esses dos quais não se fala nada pra ninguém
Que são somente suspiro e distância
Que são vontade e silêncio
Sorriso e mais nada
Que chegam a viver tempos infindáveis
Só em um dos dois
Se alimentando de segredo
E de um coração acelerado
Do nervoso da possibilidade
E de sorriso
E mais nada

(março de 2010)

Inexpressão

O meu silêncio
É o meu lamento,
A minha oração.
É a minha lágrima
Imperceptível e calada.
São as velas mudas que eu acendo
Pela poesia [e tudo]
Que nasce e morre
Em mim
Sem conhecer a cor de outros olhos.

(março de 2010)

Teu e Minha (Final Separado)

Um dia, a sábia Lei do Acaso
Aquela que controla as coisas naturais
Escreveu meu nome no poema do teu pecado
E desenhou teu rosto nos meus sonhos surreais

Em olhar o olhar; num lampejo
Nos entregou os corações costurados
Fez de ti o meu amor mais amado
Fez de mim o teu Anjo de brinquedo

Fez-nos dor de saudade e alegria sem fim
Tornou-me Céu. Tornou-te Querubim.
Simples e belos como o morrer do dia

Fez-nos eternos como Julieta e Romeu
Mesmo que eternamente eu seja teu
E só por um instante tenhas sido minha

(novembro de 2007)

Ícaro (Final Junto)

Olharam-se e ele viu o céu nos olhos dela
E a imensidão azul se tornou vontade
Assim, na impossibilidade de esquecê-la
Quis ter asas pra voar felicidade

Pôs-se a juntar os versos e as penas
Com a cera, com juras e melodia
Costurou paixão com linhas de alegria
E atirou-se ao céu com suas asas de poema

Mas o sol do céu era muito quente
E queimou as asas gentilmente
Derrubando o poeta que ousou voar

E sobre as cinzas das asas incineradas
Limpou as lágrimas já cicatrizadas
Sorrindo pra moça que o ajudava a levantar

(dezembro de 2008)

Por Perto

Eu sentia falta dos sorrisos.
Daqueles sorrisos largos e luminosos.
[Sorrisos de me estremecer, de me contagiar,
Que me doiam uma dor de alegria incessante e desesperada,
Que arrasavam
Os meus absurdos
E a minha razão.]
Dos que eu fiz e dos que ela fez.
Então eu vi que pensava neles tanto ou mais do que quando eu os via.
E percebi que eles nunca haviam ido embora.

(fevereiro de 2010)

sem título

Escrevo-te esse poema
Sem rima alguma
Para dizer-te que és como o céu e como a chuva.
E que te quero; meu céu e minha chuva.
Que és aquele sorriso antes do sono
E aquele sentimento
Constante de ansiedade
Aquela ansiedade feliz que precede toda coisa boa.
Que és gota de felicidade
E és minha acidez
E és susto de perfeição
Que nem por um instante me pacifica
Mas me acalma como se acalmam tempestades.
E que te quero sempre
Meu céu e minha chuva.

(abril de 2008)

Felicidade

Chegará o dia em que eu
Estarei tão pleno de felicidade
Tão ciente das coisas
Que tudo
Tudo terá uma importância diferente.
Nesse dia dirão que fiquei triste.

(maio de 2008)

sacramento [de confissão]

se [arrependimento é palavra que] não tem efeito
de que me serve esse jeito?
acho que vou cantar [aqui dentro] em vez de te falar
[o que tá guardado há tanto tempo]:
a verdade é que / eu não sei [o que é] amar
larala / larala

Pedaço

Aonde foi parar o pedaço
Do coração que eu te entreguei?
Deve estar preso num laço
Daqueles amores que eu criei

Coração, que outrora era alegre
Que agora bate descompassado
É triste por não ser entregue
E incompleto por despedaçado

Talvez esse pedaço que falta
Tu não me entregastes de volta
E o perdestes depois que te dei

Ou talvez esse meu descompasso
Exista por que esse pedaço
Ainda é teu e eu não sei

(fevereiro de 2008)