sem título

Eu já quis um coração leviano
Para flutuar, lépido e ágil,
De um amor a outro.
E não me arrastar, intenso e triste,
Do amor ao vazio
Do vazio ao amor
Com esse coração de toneladas
Que insiste em afundar inteiro
E decantar nas minhas vontades.
[Até que o vento soprou forte
E o coração de pluma subiu alto
Dançou bonito no ar
E foi repousar longe.
Enquanto eu permanecia
Estático, pesado, monolítico.]

(maio de 2009)

porta

não tenho interesse em ser leve
quero ser peso.
embora todos tenham um limite
é a tua resistência que há de me dizer
sois fértil, ou não.

não tenho vontade de apenas te ver
quero ter a tua mão.
mesmo que, pra isso, precise amputar a minha
e deixá-la repousar sobre o teu colchão
do lado dos meus sonhos, agora, desiludidos.

eu quero só te ver bem, com meus olhos de bem-querer
e que tu sejas como um espelho que me mira todos os dias quando acordo
enquanto penso em todas as mazelas da vida
enquanto te digo no momento em que me deixas pela porta:
tenhas um bom dia, meu amor.

Líquida

És líquida [enquanto te convém]
És maleável, de um ser fluido
Assim, quase que por descuido
Tomas a forma de quem te contém

E se tens agora meu formato
Foi porque capturei, decidido
As gotas do teu amor abstrato
A torrente do teu amor desmedido

Mas contidas, tornam-se furiosas
As águas que buscam, ansiosas
Libertarem-se em formatos incertos

E gotejam, líquidas, como pranto
Que eu vejo escorrer enquanto
Escorres por meus dedos entreabertos

(maio de 2009)

Cinza

Dia triste e nublado
Em que o sol fica escondido
Mas o lindo céu acinzentado
Se faz o meu preferido

Pois eu vejo tudo borrado
E as cores que restam ainda
São pálidos tons de cinza
A colorir meu mundo apagado

Já que feito sofrer por amores
Todo peito perde as cores
E chora por paixão que se finda

E no coração de quem amava
Resta, do amor que queimava
Apenas um punhado de cinza

(2006)

Soneto do Amor Mortal

Por favor, meu bem, vem e me ama
Extermina essa minha ânsia de viver
Chora em mim e apaga essa chama
Destrói minha vontade e meu querer

Me abraça forte e me sufoca
Me constringe, me retalha, minha amada
Faz toda essa alegria beirar o nada
E ante minha constância, me desloca

Arrasta minha calma para o abismo
Mata minha razão com um sorriso
Injeta em mim o teu amor mais letal

Aniquila minha força e me mortifica
Me tranca no teu coração, me sacrifica
Pois sendo amor, meu amor, seja mortal

(outubro de 2006)

Tempo

Senti que o Tempo não passou
Desde que fostes embora
Parece que aumentaram as horas
Parece que o Tempo estagnou
Sim, insensível, ele brincou
E fez o jogo da demora

Porém, quando estás presente
O Tempo faz outra brincadeira
Se comporta de outra maneira
E começa a correr velozmente
Faz a noite passar ligeira
E assim, vais embora novamente

Por que, Tempo, tu não entende?
Por que és assim, intermitente
E te divertes com meu sofrer
Tempo, vê se hoje tu te tarda
Deixa-me ficar com minha amada
E, por favor, atrasa esse amanhecer

(junho de 2006)