Soneto à Moça que Passa

Quão bela és tu, que simplesmente passa
Passa diante, em torno, e através de mim
Simplesmente passa, e eu te vejo assim
Distante e indiferente ao que quer que eu faça

E teus olhos! Tão ferais, sutis e claros
E misteriosos. E divinos. E belos.
Que me chamam ao ardor de desvendá-los
Mas estremeço na mínima chance de vê-los

E a tua forma! Tênue, efêmera e punjente
Que faz os Anjos invejarem docemente
A divina forma na qual fostes moldada

A mim, resta esperar-te alegremente
Para que passes, assim, simplesmente
E eu te veja: Bela. Distante. Divinizada.

(maio de 2007)

Soneto de Distração

Nas horas longas, pra distrair eu invento
Pra pensar, pra não pensar, pra dormir
Versar um verso, uma estrofe, um soneto
Escrever um hoje, um amanhã, um sentir

E conseguir despejar em algum lugar
O que me resta, me falta, me sobra
Ocupar o pensamento e não te procurar
Na saudade tua que em mim transborda

E sendo ocupado, distraído, enfim
Não me pergunto se é bom viver assim
Com a cabeça cheia e o coração vazio

Já que ficar à toa é achar um jeito
De te lembrar e encostar no peito
A ponta cega de uma faca sem fio

(julho de 2007)

Beijo

Desperto e beijo o dia
Ouso até beijar um verso
Mas se me sorri a alegria
Dou-lhe um beijo e me despeço

E vou, num gesto absurdo
Procurar meu beijo perdido
Perdi, talvez, por ter corrido
Atrás dos beijos do mundo

Ora num lábio, ora num rosto
Acho, entre um e outro
O meu beijo se perdeu

E, que feliz seria
Se, por acaso, um dia
Meu beijo encontrasse o teu

(março de 2008)

Distância

Lento e longo o dia passa
E esperar é tão insuportável
A hora, lenta, que se arrasta
Vazia e interminável

Pois quando de ti afastado
No meu lado do abismo da distância
O mundo se desfaz em inconstância
E o meu dia se torna apagado

Ah! Anjo! Quando estás distante
Sofre minh'alma longe da tua
No escuro ajoelhada e sozinha

Vem! Reduz esse espaço angustiante
Faz com que a distância diminua
Ou então, não separa tua alma da minha

(outubro de 2006)