Poema de Registro

Abro
E a água
Inunda[-me]
E enquanto ela corre morna
Sou Homero
Sou Camões
Sou Shakespeare

Fecho
E o ralo bebe
[sem nem aplaudir]
Meu Macbeth
Meu Lusíadas
Minha Odisseia

E sigo a vida sem pensar
No papel que morre de sede

(março de 2016)

Memento Mori

Aonde vão
Esses dias
Que morrem
Sem que se perceba?
Pouco ou nada velados
E que nem ao menos erguem
Túmulos na memória
Onde se lamente suas ausências

(dezembro de 2014)

Bilhete

Verso aqui
Outro lá
Vez-em-quando
Para não esqueceres
Que eu
Não [te] esqueço

(dezembro de 2014)

sem título

Não preciso de ti
Não, na verdade não preciso
Como se precisa o ar?
Não, jamais

Poderia não respirar
E morreria em instantes
Simplesmente

Mas se te quisesse. Ah, se te quisesse...
E se na desventura de não te respirar
Não morreria
Não, não morreria

Mas não viveria um segundo sequer

sem título

Se ela lesse
Os versos que não são dela
Será
Que leria os que escrevo
Enquanto espero
Que ela venha e me despedace
Com a mesma graciosidade
Com a qual despedaça
Meu juízo
E minha seriedade tola

Enquanto ela vem devagar
Com seu sorriso de amanhecer [o sol em mim]
E essas notas
De flor em seu perfume
E detalhes
Delicados como nuvens
E esses olhos
De ópio castanho

(outubro de 2013)